26 de jun. de 2026

377) A ARTE DE RESISTIR

Outro dia, num café, um amigo indignado me perguntou por que tantos políticos acabam envolvidos em escândalos. A pergunta não era nova. Nova era apenas a lista dos acusados. Mudam-se os nomes, mudam-se os partidos, mudam-se os discursos, mas os noticiários continuam frequentando os mesmos pecados com uma fidelidade que faria inveja a muitos casamentos.

Meu amigo, imagino,  queria uma explicação econômica, sociológica ou psicológica. Eu poderia ter recorrido aos clássicos. Poderia citar as estruturas de poder, os incentivos perversos, as fragilidades institucionais ou a insuficiência dos mecanismos de controle. Preferi, contudo, recorrer a uma metáfora.

— Imagine um homem entrando num lupanário.

Ele arregalou os olhos.

— Que comparação é essa?

— Tenha paciência! Imagine que o sujeito entre naquele ambiente por livre e espontânea vontade. Ninguém o obrigou. Ninguém o empurrou porta adentro. Foi porque quis.

— E daí?

— Daí que seria estranho vê-lo sair de lá, algumas horas depois, alegando ter sido surpreendido pelas tentações que encontrou.

Meu amigo riu.

A verdade é que certas atividades humanas possuem uma concentração extraordinária de tentações. Não obrigam ninguém a pecar. Apenas colocam o indivíduo diante de oportunidades constantes para fazê-lo. A política é uma delas. Não digo isso para condenar a política. Pelo contrário. Ela é necessária. Sem ela, restariam apenas a força, o caos ou a tirania. O problema não é a política. O problema é o ser humano.

Desde os tempos mais antigos, o homem demonstra uma habilidade impressionante para desejar justamente aquilo que não deveria desejar. Eva possuía todo o jardim, mas fixou os olhos no único fruto proibido. Esaú trocou uma herança por um prato de lentilhas. Judas vendeu sua lealdade por algumas moedas de prata. Até Cristo, segundo os Evangelhos, precisou enfrentar tentações no deserto. Se nem o paraíso escapou delas, por que escapariam os poderes da República?

Os gregos também conheciam o problema. Conta Platão a história do pastor Giges, que encontrou um anel capaz de torná-lo invisível. Convencido de que jamais seria descoberto, usou o poder para conquistar riqueza, influência e o trono. A pergunta de Platão atravessou os séculos. O que faria um homem se tivesse certeza da impunidade? A resposta, infelizmente, continua sendo escrita diariamente nos jornais. Mudam as manchetes. O enredo permanece surpreendentemente fiel ao original.

A política possui algo do anel de Giges. Nem sempre torna invisível quem exerce o poder, mas frequentemente cria a ilusão de invisibilidade. O sujeito começa honesto. Depois aceita um pequeno favor. Mais tarde faz uma concessão insignificante. Em seguida fecha os olhos para um detalhe administrativo. Quando percebe, já está negociando princípios como quem troca figurinhas.

A corrupção raramente chega montada num cavalo negro, com chifres e enxofre. Normalmente ela chega sorrindo. Traz justificativas. Apresenta planilhas, projetos de leis sob encomenda. Promete vantagens. Oferece exceções. Veste gravata. Em muitos casos, fala em nome do interesse público.

Há quem imagine que o poder corrompe. Não tenho tanta certeza. Talvez o poder revele. Talvez funcione como aquelas soluções químicas usadas pelos fotógrafos antigos. A imagem já estava ali. O líquido apenas a tornava visível.

O homem vaidoso torna-se mais vaidoso. O ambicioso torna-se mais ambicioso. O honesto, quando consegue resistir, torna-se exemplo. E é justamente por isso que os homens públicos verdadeiramente íntegros despertam tanta admiração. Não porque sejam perfeitos, mas porque caminham diariamente por um terreno minado sem perder a direção. Virtude em ambiente fácil tem pouco mérito. O verdadeiro teste acontece quando a tentação está ao alcance da mão.

Meu amigo permaneceu alguns instantes em silêncio. Depois perguntou:

— Então você acha que todo político é corrupto?

— Não. Da mesma forma que nem todo homem que entra num lupanário necessariamente se entrega aos seus encantos. A diferença é que, em ambos os casos, ninguém pode alegar desconhecimento dos riscos.

Encerramos o café e passamos a outro assunto, mas aquela pergunta continuou comigo. Talvez a questão central não seja por que tantos cedem à tentação, e sim outra, ainda mais importante.

Como alguns conseguem resistir?

 

Edson Pinto

Junho, 2026

19 de jun. de 2026

376) OS CARRAPICHOS DE PLATÃO

 

Ando com um problema. Não é grave. Não exige remédio. Não aparece nos exames laboratoriais nem preocupa os médicos. Pelo contrário. É um daqueles problemas que costumam atacar justamente quando a gente já deveria estar mais tranquilo. Uma ideia grudou em mim. Ou melhor, três: O Bem, o Belo e o Justo.

A famosa tríade de Platão resolveu instalar-se em minha cabeça sem pedir licença e, desde então, me acompanha para todo lado. Acordo pensando nela. Tomo café pensando nela. Vou ao computador pensando nela. Vejo televisão pensando nela. Às vezes chego a suspeitar que Platão alugou um quarto em algum canto da minha consciência.

Curiosamente, isso me fez recordar a infância: Quando eu era menino, morávamos em um bairro ainda cercado por terrenos baldios, capoeiras e pequenos matos que para nós pareciam florestas amazônicas. Eu e meus amigos passávamos bons momentos explorando aqueles territórios selvagens, travando batalhas imaginárias, caçando tesouros inexistentes e fugindo de perigos inventados. Era através do mato que encurtávamos a ida ao Mineirão ainda em construção na Pampulha dos anos 1960.

Voltávamos para casa em estado lastimável. As mães examinavam os filhos como fiscais de alfândega. Havia joelhos ralados, cotovelos esfolados, manchas de barro e, sobretudo, carrapichos. Carrapichos por toda parte. Para quem não conhece, o carrapicho é uma pequena invenção botânica destinada a testar a paciência humana. Ele se agarra à roupa, às meias, aos cadarços e, se tiver oportunidade, talvez até às ideias. Minha mãe passava longos minutos retirando aqueles invasores de minhas calças. Eu os arrancava. Ela os arrancava. A roupa voltava ao normal. Fim do problema. Pelo menos era o que eu pensava.

Décadas depois descobri que existem carrapichos mais persistentes. São os que se prendem ao pensamento. Algumas ideias têm exatamente esse comportamento. Agarram-se à consciência e se recusam a ir embora. Ultimamente, os carrapichos que me acompanham atendem pelos nomes de Bem, Belo e Justo. E eu me pergunto: O que é, afinal, o Bem? O que é o Belo? O que é o Justo?

Perguntas simples de formular e impossíveis de encerrar:  Será justo que um homem passe a vida produzindo riqueza e, ao final do dia, receba apenas uma fração do que ajudou a criar, enquanto o restante segue outros caminhos? Será belo um edifício moderno que substitui uma velha praça cheia de árvores? Será bom dizer sempre a verdade, mesmo quando ela produz sofrimento? Quanto mais penso, menos certezas encontro. Talvez seja por isso que essas perguntas sobrevivam há mais de dois mil anos. Elas não foram feitas para serem respondidas de uma vez por todas. Foram feitas para nos acompanhar.

Na juventude, eu acreditava mais nos absolutos. Imaginava que a maturidade traria respostas claras para quase tudo. A experiência, contudo, tratou de corrigir esse excesso de confiança. A vida mostrou que o mundo raramente entrega o Bem em estado puro, o Belo sem imperfeições ou o Justo sem alguma sombra de injustiça. O que encontramos, quase sempre, são aproximações. Pequenas aproximações. Um pouco de bondade aqui. Um pouco de beleza ali. Um pouco de justiça acolá. Nada perfeito. Nada definitivo. Talvez seja justamente por isso que continuemos procurando. Porque, se o ideal fosse plenamente alcançável, a busca terminaria. E o ser humano parece ter sido construído para caminhar. Não para chegar.

Penso que Platão talvez compreendesse isso melhor do que imaginamos. Talvez o Bem, o Belo e o Justo não sejam destinos. Talvez sejam bússolas. Ninguém alcança o horizonte, mas ele ajuda o viajante a escolher a direção. Ninguém toca as estrelas, mas elas orientaram navegadores durante séculos. Da mesma forma, talvez ninguém alcance plenamente o Bem, o Belo ou o Justo, mas a simples tentativa de aproximar-se deles já melhora a viagem.

Outro dia percebi que minha relação com essa velha tríade é parecida com a relação que eu tinha com os carrapichos da infância. A diferença é que aqueles eu podia arrancar. Estes, não. E talvez nem queira. Há perguntas que incomodam. Há perguntas que perturbam. Há perguntas que envelhecem conosco, mas existem algumas que fazem mais do que isso: Elas nos mantêm vivos.

Por isso, quando acordo e encontro novamente aqueles três velhos companheiros agarrados ao pensamento, já não reclamo. Apenas sorrio. Afinal, os carrapichos da infância ficaram perdidos em alguma calça antiga. Os de Platão continuam firmemente presos à alma.

Edson Pinto

Junho, 2026

12 de jun. de 2026

375) A LIÇÃO QUE NÃO ESTAVA NO CADERNO

 

Outro dia deparei-me com uma dessas notícias que costumam atravessar as redes sociais em velocidade recorde. Em geral, elas passam diante dos nossos olhos como nuvens de verão. Vemos, curtimos, comentamos e seguimos adiante. Esta, porém, resolveu ficar.

Contava a história de um brasileirinho de dez anos que entrou numa loja de informática e pediu licença para usar um tablet que tinha em exposição. O atendente consentiu. Sentado diante do aparelho, o garoto não abriu jogos, não procurou vídeos engraçados, não navegou por curiosidades passageiras. Tirou do bolso uma caneta, pegou o caderno escolar e começou a estudar, anotando detalhes.

A professora havia passado um trabalho de geografia. Em sua casa não havia computador, nem tablet, nem internet disponível. Havia apenas uma tarefa a cumprir e uma vontade obstinada de aprender. Confesso que a cena me fez pensar:

Vivemos num tempo muito curioso. Nunca houve tanta informação ao alcance das mãos. Carregamos bibliotecas inteiras no bolso. Conversamos com máquinas inteligentes. Assistimos a aulas produzidas pelos melhores professores do mundo. Em que pese isso, sabemos que, milhões de pessoas que  possuem acesso às ferramentas, demostram pouca disposição para utilizá-las. Aquele menino vivia a situação inversa. Faltavam-lhe os recursos, mas sobrava-lhe o desejo.

Talvez seja essa a diferença que nem sempre aparece nas estatísticas. A pobreza costuma ser medida pela ausência de bens materiais. Conta-se a renda, contam-se os metros quadrados da casa, contam-se os objetos disponíveis. Mais difícil, contudo, é medir a riqueza dos sonhos. O garoto não pediu brinquedos. Não pediu dinheiro. Não pediu favores. Pediu alguns minutos diante de uma tela para fazer a lição de casa. Enquanto muitos enxergam nos estudos uma obrigação, ele enxergava uma oportunidade.

A vida é, de fato, injusta. Alguns nascem cercados de conforto. Outros começam a corrida muitos quilômetros atrás da linha de partida. Não escolheram a família, o bairro, a escola ou as circunstâncias em que chegaram ao mundo.

Mas há algo que torna certas histórias inesquecíveis. De vez em quando surge alguém que, mesmo carregando o peso das dificuldades, recusa-se a abandonar os próprios sonhos. E então acontece o milagre mais simples de todos: Alguém observa. Foi o que ocorreu naquela loja. Os funcionários perceberam o esforço do menino. O proprietário soube da história e decidiu ajudá-lo. Um gesto pequeno para quem oferece. Gigante para quem recebe.

Muita gente acredita que o mundo muda apenas por grandes revoluções. Eu desconfio que ele também muda por pequenas gentilezas. Uma porta aberta. Um livro emprestado. Um professor que incentiva. Um desconhecido que estende a mão. Aquele garoto entrou na loja só para fazer um trabalho de geografia. Sem perceber, acabou ensinando uma lição muito mais importante, ou seja, aquela lição que não estava no caderno.

 

Edson Pinto

Junho, 2026

5 de jun. de 2026

374) O ROSTO QUE ESTÁ LÁ


Há dias em que o mundo parece tímido. Não se oferece inteiro. Vem em manchas, em sombras, em sinais incompletos, como uma parede antiga, dessas que já viram mais histórias do que nós. E então, como quem não suporta o vazio, o espírito humano começa a completar o quadro. Um risco vira um sorriso. Duas manchas, olhos. E eis que nasce um rosto onde antes havia apenas cal.

Minha irmã Celma jura que a mancha que tem no muro de seu quintal é a face de Jesus, generoso e piedoso iluminando com sorriso suave o seu lar e sua vida. Tanto acredita, que o pintor que repintava o muro teve que deixar aquela mancha intocada. Jesus continua lá. Isso faz bem à ela...

Descobri, não sem certo constrangimento, que isso tem nome elegante: “pareidolia”. Nome grego, desses que chegam com sandálias filosóficas e ar de quem sabe mais do que diz, mas, no fundo, trata-se de uma velha inclinação nossa, aquela de enxergar sentido onde há apenas sugestão, de ver rostos onde antes havia apenas manchas.

 Confesso que sempre simpatizei com esse defeito. Há nele uma espécie de ternura cognitiva. O cérebro, apressado e solícito, prefere errar por generosidade. Em vez de dizer “não sei”, ele arrisca um “talvez seja isto”. E, muitas vezes, acerta. Reconhecer um rosto no meio da multidão, distinguir um amigo à distância, perceber um perigo antes que ele se anuncie, tudo isso deve algo a esse pequeno exagero da percepção.

O engano, nesse caso, é produtivo. É um erro com vocação para acerto. Porém, e aqui entra a vírgula da vida, o mesmo mecanismo que nos salva no cotidiano pode nos trair no coletivo. Porque a pareidolia não se contenta com paredes e nuvens. Ela também se aventura pelos campos mais perigosos como a política, a fé, a vida social. Onde há incerteza, ela trabalha. Onde há ansiedade, ela prospera.

E assim, em tempos de confusão, surgem rostos onde há apenas contornos. Líderes são vistos como salvadores antes de serem compreendidos como homens. Discursos incompletos são preenchidos com esperanças inteiras. Um gesto vira caráter. Uma frase vira destino. E o que era apenas um traço ganha a densidade de uma face confiável. Criamos, com a mesma facilidade com que vemos figuras nas nuvens, os nossos pequenos, e às vezes grandes, messias...

Não se trata aqui de acusar a ingenuidade alheia. Seria injusto. Trata-se de reconhecer em nós mesmos essa pressa de significado. Esse desejo quase infantil de que alguém, enfim, dê forma ao caos. A pareidolia, quando sobe ao palanque, troca a inocência pela convicção, e aí já não é apenas percepção, é crença. E crenças, como sabemos, têm pernas longas.

Há, no entanto, uma defesa possível, discreta, quase silenciosa. Não consiste em abandonar a pareidolia, o que seria tão impossível quanto deixar de sonhar. Consiste, isto sim, em educá-la. Em saber que o rosto visto pode não estar lá. Em suspeitar, com elegância, das imagens que nos parecem perfeitas demais, porque o mesmo cérebro que inventa também pode revisar.

Talvez o verdadeiro aprendizado humano esteja nesse equilíbrio delicado, ou seja,  permitir-se ver antes de saber, mas aprender a duvidar depois de ver. Um passo à frente da intuição, outro ao lado da razão. Nem cego à imaginação, nem refém dela.

No fim das contas, a pareidolia nos ensina algo que raramente admitimos, o fato de  não vemos o mundo como ele é. Vemo-lo como conseguimos e, às vezes, como desejamos. Entre o que está e o que pensamos ver, constrói-se silenciosamente a nossa história.

 

Edson Pinto

Junho, 2026

29 de mai. de 2026

373) FARINHA DO MESMO SACO

 

Na rua de cima, onde o sol batia mais cedo e o tempo andava mais devagar, morava Pedro, velho amigo de Liberato. Bom de conversa, alma de filósofo, mas de histórico amoroso confuso. Estava, de novo, solteiro e só.

Era um bairro relativamente novo, mas já com poeira de velho. Aliás, eles envelheceram juntos. Ali, tudo o que era simples ganhava um ar de mistério, como se as galinhas soubessem segredos e os postes cochichassem à noite.

Margarida morava, também sozinha, na casa contígua à de Pedro. Balzaquiana em boa forma, era viúva de dois casamentos anteriores. Suspeitava-se, além disso, de ter dado cabo de um terceiro, que ninguém sabia se existiu, de fato, ou foi só invenção para dar tema às conversas da tarde. Tinha larga experiência de vida, e filosofava, como quem já viu demais...

Liberato foi prosar com Pedro na frente da casa deste. Estavam recostados no portão, como se recosta no tempo, só vendo o mundo passar. Diga-se, a propósito, que esse é o melhor jeito de aprender sem professor. Foi ali que Pedro, um tanto amargo com a vida e tocado pela desafortunada lembrança da mais recente paixão desfeita, soltou sobre ela:

— Já foi farinha de primeira. Agora virou farelo. Não dava mais para suportar.

Liberato, que já colecionava frases como quem coleciona figurinhas, ficou calado, anotando mentalmente o veneno. Mas, Margarida, vindo da casa do lado e que fingia escutar sem ouvir, como quem já ouvira aquilo antes, ergueu os olhos por cima do muro baixo e intercedeu, lançando uma sentença complementar, como quem crava prego em cruz:

— Farinha fina também vira farelo, quando esquece do saco de onde veio. No fim das contas, meus caros, é tudo farinha do mesmo saco.

Liberato percebeu que Margarida chamava Pedro pelo olhar, como quem continua uma conversa antiga. Pedro não teve como evitar de encarar Margarida ao ouvir a sentença, atitude típica dos homens que já foram íntimos demais. Havia entre Margarida e Pedro certa familiaridade silenciosa que os vizinhos atribuíam à amizade antiga. Os vizinhos, porém, erram muito... 

Liberato, espantado, sorriu de canto, com aquele constrangimento discreto dos homens que percebem ter sido incluídos numa conversa sem terem sido mencionados. Houve até um instante em que Margarida e Liberato evitaram os olhos um do outro. Foi rápido. Coisa pequena. Mas há pecados que passam inteiros dentro de um segundo.

Ficaram, Pedro e Liberato, parados. Até o silêncio pareceu encostar no muro. Foi como se Deus soprasse a poeira das suas vidas  e mostrasse que até o que brilha pode empanar. Pedro, com sua cara de quem entendeu pela metade, fez que sim com a cabeça. Liberato olhou para o chão, talvez procurando as migalhas, não sabia do quê.

Margarida voltou para dentro de sua casa, sem glória nem pressa, como se não tivesse acabado de jogar filosofia nas suas cabeças confusas. Pedro remoía seus envolvimentos, sua condição, seu destino. Liberato, o mesmo...

Convém ao leitor apressado não se apressar...

Se o leitor enxergou naquela conversa mais intimidade do que convinha à simples vizinhança, não discutirei com ele. Tampouco o confirmarei. A vida, como se sabe, raramente se deixa reduzir a atas e testemunhos, e menos ainda quando se trata de sentimentos. Esses, sim, são especialistas em esconder o essencial sob o trivial.

Dirá alguém que Margarida apenas filosofou. Pode ser. Há quem filosofe por hábito, como quem varre a calçada ao fim da tarde, mas há também os que, ao filosofar, deixam escapar, entre uma ideia e outra, restos de memória, pequenas confissões disfarçadas de sabedoria.

Quanto a Pedro, não lhe atribuo mais do que lhe cabe: um certo cansaço do mundo e uma disposição, talvez involuntária, para repetir os próprios enredos. Se isso o liga   a Margarida, não sei. Ou melhor: sei tanto quanto o leitor. E o leitor, diga-se, já sabe o suficiente.

Se houve entre ela e os dois amigos alguma afinidade além da vizinhança, deixo à imaginação de cada um, que é, no fundo, a única testemunha verdadeiramente interessada no caso. Eu, de minha parte, limitei-me a ouvir, ver e, com alguma suspeita, registrar. Porque, afinal, em matéria de gente, e de farinha, quase nunca se sabe ao certo o saco de onde veio, nem o destino que lhe aguarda. E talvez seja melhor assim...

 

Edson Pinto

Maio, 2026


 


22 de mai. de 2026

372) QUATRO ANOS DEPOIS

 

No próximo dia 27 de maio, fará quatro anos. Quatro anos não é muito tempo para quem mede a vida em calendários, mas é uma eternidade para quem a mede em ausências.

Jane partiu em 27 de maio de 2022. Partiu assim, como quem fecha uma porta com delicadeza, sem ruído, sem aviso, sem despedidas longas. Um infarto. Rápido. Limpo. Quase elegante, se me permitem o termo impróprio. Não deu trabalho. Não exigiu cuidados prolongados. Não nos preparou. E, curiosamente, deixou intacta a última imagem: uma mulher ainda viva em todos os sentidos, saudável, alegre, pronta para um jantar, para uma conversa, para mais um capítulo daquilo que vínhamos escrevendo há décadas, porque não foram poucos anos.

Eu a conheci na infância, quando ainda não sabíamos dar nome às coisas. Namoramos na adolescência, quando achávamos que o amor era uma invenção nossa. Casamos na juventude, quando já sabíamos que ele, o amor, existia antes de nós. E permanecemos juntos por 45 anos de casamento, que, somados ao antes, dão uns 60 anos de convivência.

Sessenta anos... Há casamentos que duram menos que um torneio de verão. O nosso foi um modo de existir. E então, de um dia para o outro, esse modo desaparece. A viuvez, sobretudo quando chega depois de uma vida longa a dois, não é apenas uma perda. É uma reorganização forçada do mundo. Não se perde só a pessoa, perde-se a rotina, o reflexo, a testemunha cotidiana da própria existência. Você continua falando, mas falta o interlocutor habitual. Continua vivendo, mas sem aquele olhar que confirmava que a vida estava, de fato, acontecendo.

Os dois primeiros anos foram os mais difíceis. Não por acaso. São os anos em que a ausência ainda tem cheiro, ainda ocupa lugar na mesa, ainda responde, ou parece responder, quando a memória insiste em não aceitar o fato consumado. É o tempo em que a casa ainda não entendeu que ficou maior, e o coração, menor. Depois disso, aos poucos, as coisas começam a se rearrumar. Não voltam ao que eram, isso seria pedir demais da existência, mas encontram um novo equilíbrio, mais silencioso, mais sóbrio.

E foi nesse silêncio que algo inesperado aconteceu: Jane, ao partir, deixou-me um presente. Sim, um presente, ainda que envolto na embalagem áspera da dor. Deixou-me o tempo. Tempo de solidão, é verdade, mas também tempo de reencontro. Tempo de revisitar antigas paixões que a vida, na sua pressa, havia colocado em segundo plano. Tempo de escrever. Foi nesses quatro anos que muitos dos livros que estavam apenas na minha cabeça encontraram papel. Foi nesse intervalo que a literatura, minha velha companheira, voltou a sentar-se comigo à mesa. E aqui reside um dos paradoxos mais humanos: a ausência que dói também pode ser a ausência que abre espaço. Não escolhemos isso, mas, uma vez dado, podemos, com algum esforço e alguma humildade, transformar.

Hoje, olhando para trás, sinto que o pior já passou. Não que a saudade tenha diminuído. A saudade não é um objeto que se desgaste com o uso. Ela apenas muda de forma. Deixa de ser um grito e passa a ser um murmúrio constante, quase uma música de fundo. Porém, a dor aguda, aquela que interrompe o pensamento, essa, sim, vai cedendo.

Neste ponto do desabafo, eu confesso algo que talvez soe estranho: foi melhor que Jane tenha partido antes de mim. Não por falta de amor. Ao contrário. Justamente por amor. Eu temia que, se fosse eu o primeiro, ela carregaria esse peso que me açoitou e ainda, mesmo já moderado, se faz presente. Não sei se teria a estrutura, ou a disposição, para atravessar esse período como eu atravessei. Coube-me essa tarefa. E, dentro do possível, procurei cumpri-la.

Cada um de nós tem a sua cruz invisível. Essa foi a minha. Jane deixou três filhos, seis netos e uma memória que não pesa, mas sustenta. Era forte, carinhosa, presente. Daquelas pessoas que organizam o mundo ao redor sem fazer alarde. E talvez seja isso que mais permaneça: não os grandes gestos, mas a constância.

No fim das contas, a vida é isso mesmo. Um movimento contínuo de construção e dissolução. Uma espécie de entropia existencial: nascemos, crescemos, amamos, envelhecemos e, inevitavelmente, cedemos lugar. Há quem lute contra isso. Há quem negue. Há quem se revolte. Eu, hoje, prefiro compreender. A vida vale a pena, e digo isso sem retórica, quando se aceita o ciclo que a governa. Quando se entende que o fim não é uma falha do processo, mas parte dele. E que, no meio disso tudo, o que realmente fica não é o tempo que tivemos, mas a forma como o vivemos.

Se me perguntarem o que restou de Jane, eu diria: não foi pouco. Ficaram os filhos, os netos, as lembranças  e uma certa maneira de olhar a vida, que, de algum modo, continua em mim. E isso, convenhamos, já é uma forma discreta, mas eficaz, de permanência.

 

Edson Pinto

Maio. 2026

15 de mai. de 2026

371)QUANDO AS FRATURAS SE TORNAM VISÍVEIS

Há cerca de dois anos, comecei um projeto que, naquele momento, parecia maior do que minhas próprias possibilidades de organização, disciplina e coragem intelectual.

Como acontece com muitas coisas da vida, ele avançou entre pausas, interrupções, desvios, retornos e recomeços. Houve períodos de intensa escrita. Houve semanas de silêncio. Houve momentos em que os livros pareciam caminhar sozinhos. Em outros, eu mesmo já não sabia exatamente para onde eles me levavam.

O interessante é que certas ideias têm paciência. Elas aguardam. E foi assim que nasceram os três livros que agora formam A Trilogia das Fraturas Humanas: “Abismos Globais”, “A Parte Justa” e “Governança Global”.

Embora independentes entre si, os três livros dialogam como vizinhos de uma mesma inquietação. Aos poucos, percebi que todos giravam em torno de um tema comum: as fraturas humanas do nosso tempo. As fraturas entre países ricos e pobres. As fraturas entre o capital e o trabalho. As fraturas entre uma humanidade cada vez mais interdependente e a dificuldade de coordenar coletivamente o próprio destino.

Vivemos uma época curiosa. Nunca estivemos tão conectados tecnologicamente e, ao mesmo tempo, tão divididos econômica, política e socialmente. As grandes tensões do mundo deixaram de ser apenas assuntos diplomáticos ou acadêmicos. Elas passaram a frequentar a mesa do jantar, as redes sociais, os supermercados, as migrações, o clima, o emprego, a solidão e até a esperança das pessoas comuns.

Talvez por isso eu tenha insistido tanto nesses temas ao longo desses dois anos. Não para oferecer respostas definitivas, pois desconfio cada vez mais delas, mas para tentar compreender melhor as contradições do nosso tempo. Escrever, afinal, também é uma forma de perguntar. Talvez seja essa a verdadeira função de um livro, qual seja, a de não encerrar discussões, mas abri-las.

Ao concluir essa trilogia, tenho a sensação de quem termina uma longa travessia intelectual e humana. Foram muitos textos, leituras, anotações, pesquisas na internet, nos livros que tenho, revisões, gráficos, dúvidas, mudanças de rumo e incontáveis conversas silenciosas comigo mesmo diante da tela do computador.

Agora os livros seguem seu próprio caminho. E eu os entrego aos leitores com humildade, curiosidade e esperança de que possam provocar reflexão, diálogo e inquietação, porque, às vezes, compreender o mundo já é o primeiro passo para transformá-lo.

Maiores detalhes sobre os três livros estão disponíveis na coluna direita deste blog.

 

Edson Pinto

Maio, 2026 

8 de mai. de 2026

370) A DELICADA ARTE DE PERTENCER

 

Dizem que todo mundo pertence a alguma coisa. Uns pertencem à pátria, outros à saudade. Há quem pertença à profissão, à família, ao time do coração. E há aqueles, mais discretos, que pertencem ao silêncio e não fazem alarde disso. Eu mesmo, confesso, pertenço a um punhado de coisas que nem sempre escolhi:

Pertenço ao bairro onde cresci, à calçada que guardou minhas pegadas de menino. Pertenço às histórias que ouvi sem querer e levei comigo como quem carrega bolinhas de gude no bolso. Pertenço, sobretudo, a pessoas que talvez nem saibam disso. E mesmo assim, ou por isso mesmo, é uma “pertença” ou “ pertencimento” funda, dessas que a gente sente mais do que explica.

Mas “pertença” é um bicho danado. Às vezes ela é um abraço. Noutras, uma algema. Ela acolhe, mas também limita. Quem nunca quis fugir justamente daquilo a que mais pertencia? O sobrenome, o costume, a fé da infância, tudo isso forma um território interno. E sair dele dói, mas ficar pode também doer.

Filosoficamente falando - e sempre que filosofamos um pouco a vida parece menos indomável - a tal da “pertença” não é só estar junto. É uma espécie de “ser com”: Ser com o mundo, com o outro, com o tempo...

Heidegger, que entendia dessas coisas com cara séria e palavras fundas, dizia que o ser humano não está no mundo como quem o visita. Ele, na verdade, é o mundo. É parte dele, como a janela é parte da casa. E não é curioso?  A gente pertence até ao que perdeu:  Pertence ao cheiro de alguém que partiu.  Pertence a uma música que já não ouve, mas que toca dentro da gente como se tivesse licença eterna.

Às vezes, eu pertenço à ausência. À falta de resposta. Ao eco de uma promessa antiga. Como se até a solidão fosse uma forma de vínculo. Tem dias em que acho que pertenço mais às palavras do que a qualquer coisa. Elas me vestem, me explicam, me escondem. Me traem às vezes também, mas só porque são íntimas demais.  E outras vezes, percebo que pertenço mesmo é à infância. Tudo o resto parece ser consequência: o jeito de andar, o riso meio torto, a mania de observar nuvens.

Se há uma sabedoria nisso tudo, talvez esteja em aceitar que a verdadeira “pertença“ não aprisiona. Ela cuida. É quando alguém, ou alguma coisa, nos acolhe sem exigir troca. Como quando alguém sabe que você está triste só pelo modo como você pousa a xícara sobre a mesa. Ou quando um lugar nos recebe como se fôssemos parte dele, ainda que tenhamos estado longe por anos. Aí sim, pertencemos...

E você? A quem, ou a quê, pertence? Talvez essa seja a pergunta mais sincera que possamos fazer uns aos outros. E não os surrados:

__ O que você faz?

__ Onde você mora?

__ Qual seu signo?

Mas isso:

__ Onde mora o seu pertencimento?

Se descobrir, me avise. Ou melhor, grave um vídeo, conte num bilhete, escreva num guardanapo. Porque saber a quem pertencemos é, talvez, começar a entender quem somos.

 

Edson Pinto

Maio, 2026

 

 Nota do Autor

Martin Heidegger (1889–1976), filósofo de poucas concessões e muitas inquietações, teve o mérito, ou o atrevimento, de nos lembrar que o homem não chega ao mundo como quem entra num salão vazio. Chega já sentado à mesa, com a conversa em andamento e, o que é mais curioso, como se sempre tivesse estado ali. Chamou a isso de ser-no-mundo. Nome austero para uma ideia quase doméstica: a de que não há existência fora de algum pertencimento. Antes mesmo de escolhermos, já fomos escolhidos: por uma língua, por um tempo, por uma vizinhança de afetos e circunstâncias. Heidegger não escreveu propriamente sobre “pertencer”, ao menos não com essa palavra simpática. Preferiu termos mais severos. Ainda assim, sua filosofia nos sussurra, com certa gravidade: não pertencemos como quem adere,  pertencemos como quem já chegou tarde demais para negar o convite.