9 de mai. de 2008

21) O TRISCAIDECÁFOBO




Tudo começou quando Ricardo Barros entrou na faixa dos 20 anos. No início era aquela mania de conferir duas ou mais vezes se a porta da casa estava de fato fechada. Fechava a porta, dava alguns passos para alcançar o portão e quase que instintivamente voltava, pegava a maçaneta vira-a com firmeza e sacudia a porta para certificar-se de que estava bem trancada.

Com o tempo, desenvolveu uma fobia por passar sob escadas. Depois vieram as manias de nunca deixar um chinelo virado, mesmo que estivesse na casa de um estranho. Ele levantava-se, colocava o chinelo na posição normal e ainda conferia se nas proximidades não existia outro igualmente virado. Se gato negro atravessasse seu caminho, virava-se e andava de costas bons passos. Nessa época e por isso, foi atropelado por uma bicicleta e tomou 13 pontos no braço esquerdo.

Chegou à fase de lavar obsessivamente as mãos. Lavava uma vez, depois outra e outra, porque imaginava que bactérias estavam ficando cada vez mais resistentes e teimosas; não largavam suas mãos. E nas mãos daqueles que não tinham os mesmos cuidados como ele? Nem vou lhes contar...

Já lá se iam uns 20 anos de tantas manias que no início pareciam até mesmo engraçadas, mas que, com o tempo, passaram a dominar inteiramente a sua vida. A que dominava no momento desta minha narrativa era a de somar todos os números que se apresentava aos seus olhos. Se a soma desse o número 13, meu Deus! Se o número era o próprio 13, aí, então, era um “Deus nos acuda”.

Fatos: não entrava no ônibus 4612; não passava em frente ao prédio com o número 85; se o relógio marcasse 06h16min, não levantava, esperava que passasse para 06h17min; abriu mão de uma viagem, com estadia inclusa tanto para ele como para a mulher, que ganhou no concurso do supermercado perto de sua casa, porque o vôo para Porto Seguro trazia o número 8212. A coisa não parava por aí...

O filho ia completar 13 anos e ele já considerava o garoto com 14. __ Mas papai eu vou fazer 13 anos, e ele respondia, __ Meu filho, para mim você tem crescido e amadurecido tanto que já estou pulando um aninho. Isto é bom para você, assim você fica com cara de mais responsável e posso aumentar a sua mesada. O filho concordou por motivos óbvios, é claro.

Só de pensar que um dia faria 49 anos já era um tormento na sua cabeça tão obsessiva. O problema era que ele estava com 41. Isso não o preocupava tanto, porque a soma dava 5, porém - tomado de súbito transtorno - logo se deu conta de que para 49 faltavam 8 anos. __ Meu Deus, isto é terrível, exclamou cheio de temor, __ Se somar 8 aos 5 da soma de meus anos atuais isso dará também 13. E dá-lhe sofrimento antecipado. Explodiu-se em desespero quando percebeu que nem adiantava fingir idade maior como fizera com o filho, porque todas as combinações possíveis levavam ao mesmo resultado. Por exemplo: 42 anos, daria 6 que somados aos 7 anos que faltavam para 49 e lá estava, implacavelmente, o 13. Calculem vocês mesmos as outras combinações... Seriam, portanto, 8 anos de sofrimento e depois, mais um, quando fizesse 49.

Ricardo Barros já tinha se conformado com aquela escravidão que atormentava não só a ele, mas de resto a toda a sua família e às pessoas que com as quais ele tinha relações, quer de amizades na vizinhança, quer no seu trabalho cada vez mais limitante devido à perseguição, como ele acreditava, do famigerado número 13. Nem o argumento de que Nossa Senhora de Fátima e D. João VI nasceram em um dia 13 de maio, era suficiente para aplacar o seu transtorno.

Tudo começou a ficar muitíssimo complicado na vida de Ricardo Barros, observem: 13 letras; estagnou sua carreira profissional; ficou desacreditado pelos amigos; Helena, sua esposa, e os três filhos já se penitenciavam com antecedência com as restrições colocadas por ele, sempre baseadas nas suas somas que invariavelmente levavam ao maldito número 13. Estava arruinado... E agora as dívidas, as chacotas, os sonhos tolhidos, a vida triste. Parecia tudo perdido.

Em dia próximo, sexta-feira do mês de julho, também seria 13. O filho iria completar 13 anos; Helena tinha convidado 7 casais amigos para a festa do menino, só que o marido de Tereza estava viajando e ela iria só; Marcelo Barros, também 13 letras, filho aniversariante, convidara os 16 colegas de classe e os 6 colegas do futebol. Tudo 13!

Não tinha jeito, pensou ele, aquele seria um dos piores dias de sua vida. Às 19h30min deixa o trabalho passa na casa lotérica, cabisbaixo e completamente arrasado vai para casa com o único propósito de deitar e esquecer todo aquele tormento.

Sexta-feira, o relógio marcava 07h15min. Ricardo Barros pula da cama em flagrante desafio à sua terrível obsessão, vai ao quarto de Marcelo e o abraça com efusivas felicitações pelos seus 13 anos. Beija a mulher e lhe dá 13 rápidos beijinhos com um carinho como nunca antes houvera ousado e ri tão alto que até os vizinhos se espantam com tamanha algazarra.

Abre o jornal e confere a Mega Sena: 1, 2, 3, 11, 20 e 21. Eram os números que ele tinha jogado dias antes. Tudo somado dava exatamente o número 13. Estava milionário... Libertara-se de todas as privações que a vida tão perversa tinha lhe imposto com toda aquela doentia mania de evitar o número 13, por nada e para nada.

A festa foi de uma alegria sem paralelo: portas abertas, arrancadas todas as suas maçanetas; chinelos de propósito todos virados; inventou de comprar 13 escadas e espalhá-las convenientemente encostadas nas paredes para que todos se obrigassem a passar sob elas; 13 gatinhos de porcelana, todos negros, foram dispostos sobre a mesa de doces; colocou plaquetas proibindo que mãos fossem lavadas e contratou um grupo de pagode com 5 negrões bem fortes, mas com 8 mulatas de fechar a paróquia em festa de São Judas Tadeu (13 letras). Afinal, estava liberto da triscaidecafobia, como é o nome que se dá à fobia pelo número 13, e, além do mais, lá no Banco estavam os R$32.211.220,00 que a Mega Sena lhe dera sozinho. Somou os números. Deu 13!

Assim, até eu...

Edson P. Pinto
01/04/08 (?)=13
postado em 09/05/08

Nenhum comentário: